Os episódios finais de uma das mais famosas séries de TV da história, Game of Thrones (ou simplesmente GoT como os fãs costumam chama-la), acabou não agradando boa parte de seus fiéis espectadores, que esperavam outro desfecho para a tão aguardada temporada final. Mas e a música? Vamos dar uma chance aos ouvidos e analisar esses últimos compassos.

 ESSE POST CONTÉM SPOILERS DO ÚLTIMO EPISÓDIO.

O tema de Game of Thrones

Confesso que quando escutei o tema pela primeira vez tive uma impressão não muito boa, pois esperava algo muito mais grandioso depois de ler sobre a série. Mas tenho que dizer que isso foi um equívoco, pois o tema de abertura criado pelo compositor Ramin Djawadi traduz com muita sensibilidade a história principal da série.

Estamos falando aqui de reinos, povos, exércitos, conquistas, dramas, romances e muitas batalhas. Após escutar algumas vezes o tema pude perceber que o que Ramin Djawadi buscou foi expressar algumas dessas características numa melodia que resultou em algo simples, objetivo e com uma estética que casou perfeitamente com a série.

O tema de abertura possui algumas camadas, onde os instrumentos se unem aos poucos à melodia principal. Tudo ocorre com uma base percussiva forte e expressiva, trazendo uma linguagem épica e de baltalha em contraposição com a melodia romântica do cello na primeira parte. Vamos escutar:

A maneira como a música do tema evolui junto com a repetição da melodia, que ocorre com a união de diferentes timbres durante sua execução, resultou numa música de sucesso, que foi facilmente aprendida pelso fãs e cantarolada no mundo inteiro. Sem contar as inúmeras versões que ela recebeu de diversos músicos.

Já podemos dizer que esse tema não decepcionou nem um pouco. O compositor Ramin Djawadi acertou em cheio e ganhou ainda mais respeito. Ponto positivo para o tema de abertura, agora vamos voltar ao nosso episódio final.

A trilha sonora no último episódio (S08E06)

O trabalho do compositor de música para cinema é uma grande responsabilidade, ainda mais quando nos referimos a um episódio final para uma grande série de sucesso mundial.

No entanto, o sucesso da série não deve estar em primeiro plano na mente do compositor, mas sim a compreensão da estética e do roteiro. Somente assim a música pode agregar valor às cenas contribuindo ainda mais para o resultado final. Independente da aprovação do final da série, é possível compreendermos a estética do filme em relação à musica.

É importante dizer que as análises apresentadas aqui são apenas minhas opiniões sobre o assunto. Tomei também o cuidado de descrever de maneira clara, sem muitos jargões musicais e teoria envolvida, pois não é o foco nesse caso.

Falarei apenas sobre alguns momentos que considerei mais expressivos na trilha, não diminuindo os demais, mas apenas porque se fosse feita uma análise completa o post ficaria enorme e a leitura cansativa. Vamos lá!

O choro de Tyrion Lennister

Após a destruição massiva de King’s Landing feita por Daenerys Targaryen e seu dragão, o último episódio inicia somente com os efeitos sonoros e na ausência completa de música, que só irá aparecer depois dos 10 minutos (contando a introdução e tema) e logo após Tyrion perceber que a mão de ferro de seu irmão estava entre os escombros.

Com uma breve introdução de dois violinos, depois que Tyrion retirou a pedra que cobria a face de seu irmão Jaime Lennister o cello inicia com uma nota, dando pausa para o início do choro do pequeno e valente irmão, e na sequência a melodia continua com o cello dando vida à triste situação pela qual Tyrion estava passando.

O cello tem uma função muito importante aqui, criando uma melodia triste e que auxilia na composição da cena, enfatizando a tristeza de Tyrion e o encerramento daquela era com a morte de Jaime e Cersei Lennister. O cello é uma grande ferramenta para esses tipos de cena, pois seu timbre possui uma grande capacidade expressiva.

No final, o cello dá espaço aos dois violinos que retornam como linha melódica principal. Minha opinião e interpretação aqui é que a escolha do compositor foi representar nos dois violinos o casal Jaime e Cersei, sendo o cello a representação do choro e tristeza de Tyrion.

Curiosamente, os violinos permanecem após o corte de cena mostrando Arya Stark, que veio a King’s Landing para matar Cersei, caminhando na cidade destruída. Possivelmente a decisão de manter a música no corte seja pela ligação da história entre as personagens.

Esse tipo de representação estética pode ser muito bem usada e contribui grandiosamente para a composição da cena, onde a trilha e a imagem se unem de maneira mágica. Para isso é necessário muita sensibilidade e compreensão por parte do compositor.

Daenerys, John Snow e a tensão nos olhares

A então rainha Daenerys Targaryen passa seu recado frente a seus exércios, que comemoram a vitória de sua líder e a apoiam com vigor. Após esse momento Tyrion chega e delcara não fazer mais parte de seu “time” como mão da rainha. Logo depois ele vai embora escoltado e dirige seu olhar a John Snow. Até esse momento a música criou uma textura para um background que contribuiu para a tensão da cena.

É após o início da troca de olhares entre Daenerys e John que o nosso cello volta a entrar em cena com uma melodia “flutuante”, sem chamar muita atenção. Isso permanece ainda quando repentinamente Arya aparece ao lado de John.

Enquanto a rainha vai embora, se distanciando aos poucos, a música também começa a diminuir, demonstrando a mudança de atenção e emoção de John, que agora se preocupa com sua irmã. 

Logo após John afirmar que agora Daenerys é a rainha de todos e Arya dizer para ele tentar contar isso a Sansa a música retorna com o cello na melodia, criando novamente a tensão anterior. 

Novamente, os recursos foram muito bem aplicados e contribuíram com a dramatização da cena.

O beijo final e a morte de Daenerys

Talvez um momento surpreendente no último episódio foi o assassinato de Daenerys por John Snow. O momento é antecedido pela proposta da rainha para John juntar-se a ela na luta pela construção de um novo mundo.

A música apenas cria uma leve tensão e expectativa e após a afirmação de John e o início do beijo uma forte melodia romântica fica em primeiro plano até que se ouça o som da adaga.

O ponto interessante aqui é que a melodia não se resolve (do ponto de vista harmônico), sendo que a nota intermediária é mantida e toda a música termina em fade, demonstrando a vida de Daenerys que se desvanece com o sangue.

A escolha do novo rei

O discurso de Tyrion ainda como prisioneiro diante dos representantes dos reinos é suportado pela trilha de maneira esperançosa em parte de seu discurso. Porém a música dá muito mais epaço ao diálogo para manter a tensão necessária para a cena e esperar o ponto alto.

Quando Tyrion confirma sua posição a favor de Bran Stark para que ele seja o rei, a melodia entra em primeiro plano fazendo uma menção ao tema de abertura. Após uma pausa dramática a melodia retorna em repetição, se revelando aos poucos enquanto os outros representantes manifestam sua aprovação pelo novo rei.

Isso ocorre possivelmente porque esse ato representa a conclusão da série, onde um novo rei liderará os reinos. E nada melhor do que a menção ao tema de abertura para despertar essa sensação de conclusão.

O retorno do tema principal e o fim da série

Os momentos finais da série são marcados pelos caminhos diferentes que Arya, Sansa e John tomam. A trilha aqui retorna no tema principal, mas com diferentes roupagens e algumas variações.

Os arranjos são muito ricos e oferecem uma crescente massa sonora que resulta num coro na cena final onde John Snow lidera o povo livre. As variações do tema continuam com os créditos, retomando a força do tema de abertura e finalizando assim como o mesmo.

Particularmente gostei bastante do final de Game of Thrones, pois considerei ser uma conclusão justa para o rumo que a história tomou. Mas também entendo a insatisfação de muitos.

Para a música, que é nosso foco aqui, Ramin Djawadi fez um excelente trabalho. Como compositor ele demonstrou muita sensibilidade e bom gosto para contriubir com as cenas em que a música foi necessária.

De fato, acho inegável o final feliz para essa trilha.

Alexandre Iervolino

Alexandre Iervolino

Compositor e arranjador

Sócio-proprietário da Som de Gaia, atua como guitarrista e compositor.

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